Professor do PGEB orienta sistema digital que prevê danos de ressacas na orla de Maricá

Pesquisa de doutorado, desenvolvida na UFF com ex-aluna do PGEB, cruza relatos da população e dados do oceano para apontar quando as ressacas começam a causar estragos

O professor Fábio Ferreira Dias, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Biossistemas (PGEB) da Universidade Federal Fluminense (UFF), orientou o desenvolvimento do Sentinela da Orla de Maricá, um sistema digital de monitoramento que busca prever os danos causados por ressacas na orla do município. A pesquisa foi divulgada pela UFF em 30 de setembro de 2026.

O sistema foi elaborado pela pesquisadora Camila Américo dos Santos em seu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros da UFF, sob orientação de Fábio Dias, que integra os quadros permanentes de docentes desse programa e do PGEB.

Camila é graduada em Ciência Ambiental pela UFF. No mestrado, realizado no PGEB, trabalhou com monitoramento ambiental de ambiente manguezal. No doutorado, em Biologia Marinha, deu continuidade à atuação em ambientes costeiros, com pesquisa voltada a monitoramento costeiro, geotecnologias, dados meteoceanográficos, informação geográfica voluntária e ciência cidadã aplicada à gestão de riscos e impactos na orla.

Ciência cidadã como rede de sensores

O Sentinela se baseia no método de ciência cidadã. Moradores, quiosqueiros e frequentadores da orla podem enviar fotos, vídeos e descrições dos danos por um WebSIG ou por um canal no Telegram. Cada relato é associado à sua localização e horário e cruzado com as condições do mar naquele momento, como altura e período das ondas, fluxo de energia, vento e nível da água. O cruzamento indica a partir de quais condições os estragos começam a ocorrer.

Segundo o professor Fábio, a escolha do método vem da ausência de monitoramento específico para a região. As praias de Maricá são refletivas, com grande inclinação, areia grossa e ondas que arrebentam direto na faixa de areia, e sofrem erosão rápida durante ressacas. “Percebemos que os modelos oceanográficos tradicionais de mar aberto ignoravam a dinâmica hiperlocal das praias refletivas de Maricá, enquanto moradores, quiosqueiros e frequentadores da orla postavam no Instagram o impacto real muito antes ou fora dos alertas oficiais. A população, nesse caso, funciona como uma rede distribuída de sensores de impacto”, explica.

O que a pesquisa mostrou

O estudo identificou que 42,5% dos impactos urbanos na orla de Maricá ocorriam com ondas abaixo de 2,5 metros, limiar usado pelo sistema de alertas da Marinha, voltado à segurança da navegação offshore. A frequência de danos estruturais também muda de patamar: passa de 25% nos eventos com ondas entre 3,0 e 3,5 metros para 50% a partir de 3,5 metros.

“Quantificar essa virada de chave dá à Defesa Civil um parâmetro exato para acionar a emergência”, destaca Fábio Dias sobre a importância prática dos resultados.

A ferramenta não substitui os alertas tradicionais, e sim os complementa. O estrago depende de um conjunto de fatores oceânicos e meteorológicos, e não apenas da altura da onda.

Aproximação com a gestão pública

Ainda não há parceria institucional formal com os órgãos competentes, mas o Sentinela foi apresentado em palestra na sede da Área de Proteção Ambiental de Maricá. A estratégia do grupo é priorizar a escala municipal e oferecer soluções acessíveis e de baixo custo, como a combinação de dados gratuitos com a ciência cidadã. “O Brasil tem centenas de municípios costeiros sofrendo com ressacas, e a gestão de risco real acontece no chão da cidade, não em mapas macrorregionais”, afirma o professor, que lembra que a abordagem já havia chamado a atenção da gestão climática de Niterói, onde o grupo foi convidado a integrar o Fórum do Clima do município.

O sistema pode ser replicado em outros municípios, desde que haja nova calibração com dados locais.

Sobre o professor

Fábio Ferreira Dias é Professor Titular da UFF, lotado no Departamento de Análise Geoambiental, e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. É doutor em Ciências (Geologia) pela UFRJ e integra os corpos docentes permanentes dos programas de Biologia Marinha e Ambientes Costeiros e de Engenharia de Biossistemas.

Fonte: Divisão de Assessoria de Imprensa da UFF, “Sistema digital desenvolvido na UFF prevê danos causados por ressacas na orla de Maricá”, 30/09/2026. https://www.uff.br/30-09-2026/sistema-digital-desenvolvido-na-uff-preve-danos-causados-por-ressacas-na-orla-de-marica/