

À direita: O investigador Julio Cesar Menezes e a Professora Dra. Cristina Antunes, líder do grupo Ecologia Funcional das Plantas do CE3C. À esquerda, o Professor Dr. Luís Dias, coorientador do doutorando do PGEB no exterior.
O investigador Julio Cesar Menezes, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Biossistemas (PGEB) da Universidade Federal Fluminense (UFF), deu início às atividades de seu doutorado-sanduíche na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa junto ao Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C). A pesquisa tem orientação do Prof. Dr. Daniel Andrés Rodriguez, coorientação da Profa. Dra. Cristiane Nunes Francisco e coorientação no exterior do Prof. Dr. Luís Filipe Dias. Em Lisboa, o investigador foi recebido pela Profa. Dra. Cristina Antunes, líder do grupo Ecologia Funcional das Plantas, ao qual o Prof. Dr. Luís Dias está vinculado.
O projeto, intitulado “Percepção social do risco da população exposta a inundações: estudo comparativo entre o Rio de Janeiro b e Lisboa numa perspectiva socio-hidrológica”, busca compreender como moradores de áreas expostas interpretam as inundações, avaliam as instituições e percebem sua capacidade de resposta. A proposta relaciona essas percepções à história de ocupação das cidades, às condições socioeconômicas e às decisões de planejamento urbano e adaptação a eventos extremos.
Para o estudo, as inundações resultam de interações entre água, sociedade e território. Assim, identificar áreas expostas não basta para compreender os impactos sobre seus moradores. A experiência com episódios anteriores, a confiança nas autoridades e as condições da moradia podem influenciar a maneira como o risco é entendido. A comparação entre as duas Cidades do norte e sul global pretende examinar essas relações com um instrumento comum, respeitando as diferenças sociais, institucionais e territoriais de cada contexto.
A metodologia reúne três níveis integrados. O primeiro organiza um inventário histórico e espacial de inundações, combinando documentos, notícias de imprensa e registros oficiais. No Rio de Janeiro, o projeto utiliza o levantamento histórico da antiga Superintendência Estadual de Rios e Lagoas e bases de desastres. Em Lisboa, trabalha com registros da Câmara Municipal e da base DISASTER. A consulta a jornais complementará os inventários e permitirá confrontar ocorrências noticiadas com os registros disponíveis.
O segundo nível cruza a exposição histórica com indicadores socioambientais, utilizando os Censos brasileiros de 2010 e 2022 e os portugueses de 2011 e 2021, para assim poder compreender a diferença na exposição às inundações com os dois censos. A proposta prevê compatibilizar as variáveis para aplicá-las em um índice de vulnerabilidade socioambiental e compará-las espacialmente. O investigador também examinará os planos diretores e instrumentos de adaptação, buscando compreender como o planejamento incorporou a ocupação de áreas com registros de inundação ao longo do tempo.
O terceiro nível prevê a aplicação presencial de um questionário comparável nas duas cidades. As respostas abordarão experiência com inundações, percepção da exposição, confiança institucional, impactos e capacidade de resposta. O projeto prevê validar o instrumento com colegas do grupo de pesquisa do Professor Luís Dias. A imersão e o convívio com o grupo de pesquisa do CE3C auxiliarão quanto às diretrizes éticas para a aplicação do questionário na área escolhida de Lisboa, junto a membros do grupo que também aplicam o mesmo método. A escolha da área para aplicação do questionário será orientada pelo coorientador no exterior com base nos resultados do nível 1.
A etapa portuguesa contribuirá para desenvolver o diagnóstico de Lisboa e preparar a investigação da percepção social do risco nesse contexto. O projeto tem como objetivo poder indicar os locais que são inundados historicamente e apresentar, através dos questionários, as diferenças, similaridades e necessidades da população exposta que possam auxiliar nas próximas tomadas de decisões de adaptação aos eventos extremos. O projeto reconhece limites, como diferenças entre as bases censitárias e a disponibilidade de informação espacial sobre áreas inundáveis. Apesar dos limites, o projeto reconhece a importância de comparar países do norte e sul global para entender a capacidade de resposta e de interpretação da população exposta.
Entre os produtos esperados estão inventários de inundações atualizados na base portuguesa, mapas de vulnerabilidade comparativos com dois censos, análise das trajetórias institucionais e uma matriz comparativa da percepção social do risco. Ao reunir essas dimensões, o projeto de tese busca dar voz à população exposta e às suas experiências. A pesquisa pretende ser um canal de comunicação da população que possa ajudar na adaptação às necessidades frente aos eventos extremos. O sanduíche amplia o diálogo científico entre a Universidade Federal Fluminense e a Universidade de Lisboa e articula a formação do doutorando a desafios compartilhados pelas duas capitais.
O projeto contribuirá principalmente para o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e o ODS 13 (Ação Climática). Ao mapear historicamente as inundações no Rio de Janeiro e em Lisboa, cruzar essa exposição com indicadores censitários de vulnerabilidade socioambiental e medir a percepção social do risco da população exposta, a pesquisa se propõe a gerar evidências para reduzir o número de pessoas afetadas por inundações, com atenção às populações em situação de vulnerabilidade, e para o planejamento urbano mais integrado e participativo, conforme o ODS 11. A análise comparada dos planos diretores do Rio de Janeiro e de Lisboa apoia a avaliação de como as políticas de ordenamento do território lidam com o risco de inundação. Em relação ao ODS 13, o estudo fortalece a compreensão da resiliência e da capacidade de adaptação a riscos climáticos e desastres e amplia a conscientização sobre o tema, uma vez que a matriz comparativa da percepção do risco pretende subsidiar a comunicação de áreas prioritárias para planos de adaptação. Trata-se de uma contribuição de produção de conhecimento e de subsídio à decisão, sem pretensão de reduzir diretamente perdas ou danos.
Pesquisadores da instituição anfitriã
Luís Filipe Antunes Dias é investigador do CE3C e doutor em Urbanismo pela Universidade de Lisboa (2016). Leciona no programa de doutoramento em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável, iniciativa conjunta da Universidade de Lisboa e da Universidade NOVA de Lisboa. Sua investigação abrange eco-hidrologia, serviços climáticos, avaliação de inundações e resiliência socioecológica, incluindo soluções baseadas na natureza para adaptação urbana.
Cristina Maria Nunes Antunes é investigadora do CE3C e líder do grupo Ecologia Funcional das Plantas. Doutora em Ecologia pela Universidade Estadual de Campinas (2018), pesquisa ecofisiologia vegetal e eco-hidrologia, com foco nas respostas da vegetação às mudanças na disponibilidade de água subterrânea e suas implicações para a conservação e a gestão dos recursos hídricos.
